Editorial | Dazibao Nº2

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Umfunktionierung: do alemão, “inverter o funcionamento”, “conferir uma nova função” ou simplesmente “refuncionalizar”.

— Alguns revólveres não disparam mesmo que a pessoa tenha enlouquecido, senhora Müllerová. Há uma infinidade de sistemas de segurança, travas, coisas assim. Mas, para assassinar o arquiduque, devem ter comprado o que havia de melhor. Aposto o que a senhora quiser que o sujeito que fez isso estava impecavelmente vestido. Não há quem não saiba que atirar em um arquiduque é uma tarefa muito difícil. Não é como quando um caçador clandestino atira em um guarda-florestal. A questão é como chegar perto da vítima, coisa que não é possível quando se está vestindo roupas andrajosas. Precisa usar um chapéu tipo cartola se não quiser que a polícia o apanhe antes. […] Imagino que o arquiduque Ferdinand também se equivocou a respeito da pessoa que atirou nele em Sarajevo. Certamente viu um senhor e pensou: se está gritando viva, só pode ser um homem honesto. E, em troca, o sujeito lhe deu um tiro. Atirou uma ou várias vezes?
— Segundo os jornais, senhor, o arquiduque parecia uma peneira. Esvaziaram um pente inteiro em seu corpo.
— Essas coisas acontecem muito depressa, senhora Müllerová, terrivelmente depressa. Se eu tivesse que fazer uma coisa dessas, compraria uma Browning. Parece um brinquedo, mas em dois minutos você pode fuzilar vinte arquiduques, gordos ou magros. Embora, aqui entre nós, senhora Müllerová, deva dizer que é mais fácil acertar um gordo do que um magro. Lembro que uma vez em Portugal fuzilaram um rei. Também era gordo. A senhora sabe que um rei nunca é magro.
(Jaroslav Hasek, As aventuras do bom soldado Svjek, 1921)

É sabido que, com Brunelleschi no século XV, a figura do artista e, portanto, a concepção moderna e ocidental da arte como esfera autônoma, despontou no palco da história com a honrosa função de, malandramente, pôr fim a uma greve de artesãos, trabalhadores da construção civil. Astúcia da razão? Como uma espécie de “fura-greve” ideal, o artista individual, ou aquele que a partir de então passava a ser o “autor” de obras, foi alçado aos céus das profissões liberais – como vencedor. Este novo profissional liberal encontrava-se livre, portanto, das mesquinhas preocupações materiais que afligem constantemente todos aqueles que foram alguma vez vencidos. A história da arte, como ramo particular da hagiografia, acompanha o senso comum ao postular a ideia de que os trabalhadores não criaram a arte – apenas, premidos pelas circunstâncias, trabalharam para ela.

Mas dessa situação emergiu também o contraditório projeto emancipatório que perpassou, em grande medida, o ciclo histórico da arte moderna (que coincide, ao menos temporalmente, com o ciclo histórico do proletariado). Afinal, Brecht, com seu projeto de refuncionalização dos meios e instituições artísticas, se utilizou justamente de formas estéticas (refuncionalizadas) para formular a dupla pergunta: “Quem construiu a Tebas de sete portas? / Nos livros estão nomes de reis. / Arrastaram eles os blocos de pedra?”. Não há dúvida de que em diversos momentos as artes valeram aos vencidos como projeto emancipatório, configuração imaginária ou potencial de uma nova sociedade, elaboração negativa e elucidadora dos problemas materiais: foi capaz de criar “imagens praticáveis do mundo”.

Contudo, esses momentos foram breves, relampejantes, e deixaram mais marcas no imaginário da crítica do que nas condições materiais da classe trabalhadora. Se os vencidos se valeram delas em momentos específicos, foi porque as atividades artísticas se constituíram, nesses mesmos momentos, tão úteis quanto as Brownings ou os AK-47 para projetos revolucionários mundo afora. Mas as armas também mudam com os hábitos: a experiência mostra que hoje ninguém mais usa cartola. E não é preciso mais do que a experiência para perceber claramente quando os tiros passam a sair incessantemente pela culatra.

Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie. E, assim como ele não está livre da barbárie, também não o está o processo de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um vencedor a outro.
(Walter Benjamin, Teses sobre o conceito de história, 1940).

Em que deve concentrar esforços, então, o engenho negativo da crítica? Nas obras das artes visuais? Nos objetos ou ações artísticas? Na arte?  Em qualquer coisa que se rogue sob este estatuto? Em todo esse constructo, que até os dias de hoje levou boa parte da própria crítica, de esquerda inclusive, e desde o Iluminismo, a contribuir e lhe prover alma?

Como investir em um estatuto – a arte – se ele também foi gerido como um documento de poder e dominação? Assim, é preciso deixar de lado, ao menos por um momento, esse dispositivo astuto que sediou as expectativas de um horizonte emancipatório, um projeto de futuro, e que tanto logro gerou por décadas. Pô-lo entre parênteses.

Parece claro que a crítica de arte se manifesta como mais um dos processos de transmissão, de um vencedor a outro, dos despojos da luta. E do ponto de vista dos vencidos, portanto, ela deve ser totalmente recriada. Para isso é fundamental que se compreenda onde a arte se encontra agora. Para compreender também o papel de quem a critica. E para definir o que é, ou deve ser, a própria crítica: definir seus novos meios e sua nova utilidade.

*

Agora. Ao leitor das páginas que seguem a dimensão temporal soará cínica. A revista, atrasada ao menos dois anos pelas (imperdoáveis) contingências materiais da auto-organização (não se ousa declarar esta uma revista independente: ela já depende da existência de um meio, que ela procura negar, para sua circulação), apresenta objetos de reflexão já poeirentos, enterrados na sucessão de manchetes, eventos, clippings e vernissages.

O interesse por aquela busca da refuncionalização da crítica – o interesse pelo método – já seria justificativa suficiente. Mas, além disso, premida pelas circunstâncias de uma realidade (agora) em ebulição, esta edição junta os restos noticiosos do longínquo passado recente para apresentá-los à crítica do hoje – onde as disparidades não serão menos importantes que as coincidências.


 


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